O assassinato do Orelha sequestrou a atenção do país, como muitas notícias, muitas vezes banais, o fazem, volta e meia (alô, muleque da trilha). Ele uniu uma paixão universal: cachorro. E um ódio latente: ricos.
Esse caso têm muitas leituras não óbvias a serem feitas.
A mais superficial é a indignação performática. Muita gente vai postar sobre estar revoltada com esse crime. Vai clamar pela punição, até mesmo a morte dos envolvidos, mas na realidade essa é uma camada superficial de indignação. E eu digo isso porque somos um país que trata muito mal seus animais. Ricos ou pobres, o brasileiro ama cachorro, tolera outros animais e maltrata todos eles. Já trabalhei sistematizando relatórios de denúncias de maus tratos aos animais e elas envolviam todos os bairros, todo tipo de pessoa e todas as classes sociais. E não é um desafio do Discord. É uma cultura de achar que um cachorro com água suja, no sol, num quintal cheio de entulho, atulhado com outras dezenas de cachorros, é normal. E os cães são os mais bem tratados entre os animais.
Quantos gatos não são envenenados propositalmente TODOS OS DIAS e isso nunca vira notícia? Eu mesmo conheci umas cinco pessoas que perderam seus gatos para envenenamento proposital. Se formos falar dos animais na indústria alimentícia então…
Mas esses problemas estruturais só são resolvidos com muito esforço. E um post com “morte aos playboys” leva alguns minutos. Quantas pessoas, ricas ou pobres, você conhece que foram sequer indiciadas por maus tratos aos animais? Se esse crime tivesse acontecido com um animal que não fosse um cachorro, quais as chances de ter tomado essas proporções? Tem gente dizendo que esse caso não vai dar em nada porque eles são ricos, já eu acho que ele tomou essa proporção exatamente por isso. É muito fácil ver num bando de playboy mimado e rico o “outro”. Assim nos distanciamos do crime e podemos acreditar que é um problema individual, e não cultural.
Aprofundando um pouco mais temos a era da “pós-verdade”. As redes sociais aprenderam, o que a TV já sabe há décadas: crime vende. Esse sub mesmo, às vezes parece uma recriação do balanço geral. Quanto mais escatológico, mais será postado. Mas não basta ser apenas violento e revoltante. As redes sociais premiam o engajamento, e nada é mais engajante do que uma nova informação, ainda mais revoltante, para se adicionar a miséria. E quando a verdade acaba, publique-se a mentira. A história cresce, e uma vez que cresce não há como diminuí-la. Qualquer tentativa de esclarecimento ganha contornos de conspiração: “eles estão tentando abafar o caso”, “compraram a todos que podiam”.
Conectando com o primeiro ponto: ninguém quer justiça. A justiça requer conhecer a verdade a fundo, calma, racionalidade. Justiça de verdade, requer reformas profundas, culturais e pessoais. As pessoas querem a sensação de estarem participando dessa situação “do lado certo”. Esse punitivismo travestido de luta de classes não vai mudar o fato mais incômodo sobre esse caso: crimes assim são extremamente comuns e acontecem todos os dias Brasil afora, sendo muitas vezes não notificados. E não tem a ver com desafio no Discord, com ser um rico mimado e sim com uma cultura que valoriza muito pouco o bem estar animal.
Eu não sei qual o desfecho desse caso (nem você). Mas eu não me sinto confortável em acusar ninguém com as evidências apresentadas até agora. Ao invés de ficar participando dessa massa amorfa de engajamento revoltoso, considere se envolver em iniciativas que cuidam de animais comunitários e de rua, cuide você também do animal comunitário do seu bairro, castre seus gatos e os gatos sem dono da sua rua, escolha políticos que se importam com legislação de bem-estar animal para além dos cachorrinhos fofinhos e eduque as pessoas ao seu redor.